Águas passadas

No dia em que morreu, o Capitão estava andando por seu navio e contemplando o mar. O mar era de um azul muito vivo, que enchia os olhos do homem e lhe fazia pensar que não poderia haver vida melhor do que aquela, onde o horizonte era sua casa.

E foi na vastidão do oceano que o sol fez brilhar um objeto próximo ao navio, aguçando a curiosidade do Capitão. Em vez de pedir aos marujos que buscassem aquilo, ele mesmo preparou um barco e desceu às águas.

Resgatado, o objeto revelou-se uma belíssima garrafa, de contornos finos e bem trabalhados, com uma carta dentro. Acostumado com as lendas de mensagens em garrafas, o Capitão não se surpreendeu. Remou de volta ao navio e levou o achado para sua cabine.

Ao som do ranger das madeiras do antigo navio, o homem examinou a garrafa fechada com mais atenção, degustando seus detalhes, quando reconheceu a letra contida na carta que estava lá dentro. Era nada menos que uma mensagem escrita de punho próprio pelo Rei, que tempos atrás lhe prometera terras e um alto posto em seu reino antes de expulsá-lo de seus domínios num dia de fúria. Animado com a possibilidade de ser o destinatário daquela carta, o Capitão prontamente quis abrir a garrafa. Quem sabe que honras poderiam estar reservadas para ele naquela carta? Seria um simples pedido de desculpas da Casa Real ou um convite para um banquete junto das mais importantes autoridades?

Mas havia um detalhe na rolha, até então despercebido, que selava a garrafa. Escrita de mau jeito e com garranchos estava a mensagem “NÃO ABRA”. O Capitão passou o polegar pela mensagem, pensativo. Ele olhou pela janela, e o céu, antes aberto e claro, agora era tomado por pesadas nuvens.

Conta-se que a tentação de ter um pedaço de seu passado de volta foi maior, e o homem abriu o invólucro. Instantaneamente, um raio caiu sobre o navio, partindo-o ao meio, rasgando seu mastro de alto a baixo, como se fosse feito de seda.

Gritos eram ouvidos do lado de fora, e o Capitão saiu de sua cabine para encontrar uma tripulação desesperada, que corria de um lado a outro tentando se salvar. Um forte vento jogava o navio para onde queria nas águas agitadas.

Sem esperanças, o homem viu um faxineiro que, balde ao braço, esfregava a madeira do convés prestes a ser bebido pelo oceano furioso. O Capitão perguntou àquele homem o que fizera para merecer tal destino. O marinheiro, sem tirar os olhos do trabalho, lhe disse que alguns passados são melhores quando deixados no passado.

O Capitão pediu que o marujo se levantasse, então pegou uma de suas próprias medalhas e condecorou o outro. Lenta e inevitavelmente o navio afunda. E não se vê mais fogo, e não se ouvem mais gritos.

A memória é tudo e o caos reina.

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