Levantar

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Tem dias que a gente acorda que nem aquele cara que foi no João Kléber pra revelar ao irmão que não aguenta mais ser confundido com o cantor Gusttavo Lima. Eu sei que, talvez, você olhe pra mim, quem sabe até me ouça cantar que é esse cabelo cor de ouro que me deixa louco, e pense “poxa, esse não é o cara mais parecido com o cantor Gusttavo Lima que eu conheço”, MAS eu ainda tinha algo em comum com o sósia: eu não aguentava mais.

Isso aconteceu quando eu tinha 20 anos recém completos. Quando você passa dos 18, vem aquela sensação de que finalmente você é um adulto, pronto para conquistar os continentes, frequentar as rodas de conversa dos mais nobres confrades e o principal: estar apto a dirigir um automóvel.

Aos 20, eu ainda não tinha habilitação, havia perdido o emprego há algum tempo e, bem, a mecânica da minha vida ainda era similar à de um garoto de 14 anos que pede pro pai levá-lo na festa da Wizard (o garoto estava na minha frente nesse sentido. Eu nunca fui a uma festa da Wizard). E ainda havia a cereja do bolo: minha irmã, 5 anos mais nova, agora estava namorando e eu nunca tinha sequer andado de mãos dadas com uma moça. Ouch!

Como fã de Chaves, acho qualquer piada da série engraçada, mesmo que saiba todos os episódios de cabeça. O que não é legal é quando sua vida parece ser igual ao Chaves em sua pior característica: todo dia é reprise. Mas uma hora isso acaba. Foi num desses dias atípicos que minha vizinha da frente, uma senhorinha, veio bater na porta de casa. Ela estava muito agitada, pedindo que eu ajudasse o marido dela, que havia se acidentado na sala. Isso era um trabalho para um homem de verdade, mas como meu pai não estava em casa, não havia pra onde correr (até havia, mas não seria muito cortês de minha parte). Fui atrás da velhinha.

Ao entrar na sala, o vovô estava sentado no chão, rabugento. Ele não respondeu quando o cumprimentei. Além de não parecer o cantor Gusttavo Lima, outra característica minha é que não sou a pessoa mais forte da América Latina, então aquela seria uma tarefa difícil, pois o homem não era lá muito magro. Tentei levantar ele igual levantaria um bebê, segurando por baixo dos braços, mas o máximo que eu ia conseguir era ferrar minhas costas. Uma coisa que me impedia de por força de verdade é que sempre que eu fazia menção de levantá-lo, o velhinho se queixava de dor.

Notei que perto da poltrona, onde ele encostava as costas na parte em que normalmente se encosta a perna, estava um andador. Pelo que entendi, ele foi manobrar do andador para a poltrona e escorregou. Ele não tinha mais força nas pernas. Não sei se da melhor forma, mas decidi tentar o resgate de um jeito diferente, me ajoelhando perto do velho e abraçando-o firme, como abraçaria meu pai. “Força aí”, falei pra ele (e, no fundo, pra mim também) ao puxá-lo para cima.

Já sentado em sua poltrona, meu vizinho voltou a ver televisão, resmungando qualquer coisa. A mulher dele me agradeceu bastante, ele não, mas não fazia muita diferença. Penso que ele estava cansado de viver daquela maneira, completamente dependente, igual a mim. Percebi que um dia seria eu naquela situação, e aquela estranha visita acabou sendo uma motivação enorme para que eu desse a volta por cima, aproveitasse minha chance o melhor que pudesse. Poucos meses depois, recebi a notícia que aquele senhor havia falecido.

Essa semana, me peguei lembrando dessa história e pude mais uma vez tirar forças dela. Sei que é inevitável o dia em que o vigor da juventude vai me fazer falta ou que, metaforicamente, seja primordial que alguém me tire do chão, mas esse dia não é hoje. Os olhos ainda têm brilho, o coração ainda pulsa, as pernas ainda são fortes. Ainda é possível levantar.

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